Fatos e dados sobre
alimentos industrializados

A qualidade

de um alimento é

definida pelo seu grau

de processamento?

O que determina a qualidade de um alimento é sua composição nutricional, e não a quantidade de ingredientes ou etapas de processamento. Um alimento pode ser mais ou menos nutritivo, tendo ele sido processado ou não.

Portanto, é equivocado afirmar que o grau de processamento qualifica um alimento e, menos ainda, que possa classificar um alimento como de baixo valor nutricional, que promova ganho de peso e ou que cause doenças crônicas. Tal classificação ignora os benefícios comprovados de dietas balanceadas que contemplam alimentos de todos os tipos de processamento.

“Os consumidores precisam ser corretamente informados de que a saudabilidade não tem correlação direta ou absoluta com o número de ingredientes, intensidade ou número de processos ou com o fato de que o alimento foi processado em residências ou em uma grande indústria”.

Ref: ScienceDirect. Trends in Food Science & Technology. 2021.

o que é importante saber

Diversos padrões alimentares podem ser considerados saudáveis. Uma dieta saudável é definida pela Organização Mundial da Saúde como aquela que é diversa, que inclui quantidade suficiente de frutas e legumes, quantidade limitada de açúcares, sal e gordura saturada, e que seja adequada em valor energético. A definição da OMS sobre alimentação saudável não inclui a recomendação de evitar alimentos processados. 

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Um grupo de cientistas do departamento de Ciência da Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto, no Canadá, comparou a qualidade nutricional de alimentos e bebidas mais processados com outros menos processados.

Um dos resultados encontrados foi que alimentos tanto ricos em calorias quanto em nutrientes existem em diferentes níveis de processamento. Por isso, os autores dizem que não faz sentido recomendar que um alimento específico seja evitado simplesmente considerando seu grau de processamento.

A conclusão do estudo é que “as escolhas e as recomendações alimentares devem ser baseadas principalmente na densidade de nutrientes, e não no nível de processamento.” Isso porque os alimentos considerados mais processados diferem muito entre si com relação à qualidade nutricional. Portanto, a classificação de processamento não seria suficiente para garantir uma escolha saudável.

De acordo com a BDA – British Dietetic Association (Associação de Nutricionistas do Reino Unido), o processamento de alimentos pode gerar mudanças na qualidade e nos atributos do produto. Há casos em que essas mudanças são intencionais e proporcionam melhorias no teor de nutrientes, textura, aparência e sabor dos produtos. Em outros casos, as mudanças podem simplesmente tornar o produto diferente, sem melhorar ou alterar sua qualidade.

Ainda segundo a BDA, alimentos processados cumprem o papel de atender às necessidades nutricionais, por isso é importante que as pessoas não evitem os que possuem mais de cinco ingredientes, pois muitos deles são essenciais para alcançar uma dieta balanceada.

Em artigo recente, pesquisadores da área da Ciência, Tecnologia e Engenharia de Alimentos consideraram imprecisa a classificação de alimentos por grau de processamento, corrente que ignora estudos científicos e sugere, a partir de dados inadequados, que alimentos preparados com ingredientes básicos em casa têm qualidades nutricionais superiores aos produzidos por indústrias.

Para os autores do artigo, tal classificação se baseia na premissa errônea de que alimentos industrializados mais processados têm baixo valor nutricional, promovem ganho de peso e causam doenças crônicas aos consumidores porque contêm açúcar, sal e aditivos.

O artigo afirma ainda que os estudos que correlacionam alimentos mais processados com maus resultados de saúde mostram mais sobre impacto de dietas compostas de alimentos inadequados (dietas não balanceadas) do que qualquer possível impacto negativo do processamento de alimentos em si. Em resumo, tal classificação é uma forma imprecisa de definir alimentos.

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